Louis Armstrong: A Personificação do Blues (CONTINUAÇÃO)


15/12/2007


Continuação da Vida e Obra de Louis Armastrong

preciso lembrar os primórdios de sua carreira em Nova Orleans e levar em conta que ele sempre se considerou mais um entertainer , um show-man, que um músico.


Por volta de 1933 descobriu que sabia tocar com facilidade extrema no registro agudo do instrumento e que algumas longas séries de notas agudas agradavam ao público. Resolveu introduzi-las também nos discos. É preciso, porém, reconhecer que, se reco0rria a certos virtuosismos para agradar às galerias, sabia também utilizar as notas agudas de modo muito lógico.


Sabia igualmente – como relata Roy Eldridge – construir gradativamente um edifício sonoro, contar, por assim dizer, uma história, e terminar com um final de grande efeito, mas sempre muito centinho, limpo e claro.


Em 1933, Armstrong deu início a um segundo giro pela Europa. Permaneceu dezoito meses tocando na Inglaterra, Suécia, Noruega, Dinamarca, Holanda, França, Bélgica, Suíça e Itália. Em Paris gravou diversas músicas, uma das quais, On The Sunny side Of The Street, é bem representativa de seu modo de tocar naquela época.
De volta, em janeiro de 1935, tocou no Meio-Oeste e no sudoeste; depois assinou contrato com a Decca e passou a dirigir a orquestra de Luis Russel, com a qual tocaria até 1942.


Os primeiros discos gravados para a Decca deram origem a discussões: alguns críticos de peso escreveram que o estilo de Armstrong havia mudado – para pior. A verdade éw que o artista já não exibia seus finais com base nas notas agudas; sua sonoridade tornara-se mais nítida e macia, enquanto seu fraseado (assim como, de forma mais genérica, sua presença no palco) caracterizava-se por maior sobriedade. Entre os discos dessa fase Destacam-se as novas versões de Struttin’ With Some Barbecue e de Save It Pretty Mama, além de Sweethearts On Parade e de algumas gravações feitas em sessões especiais com Sidney Bechet.


Em 1936, foi publicado um livro autobibliográfico, Swing That Music, no qual se percebe a mão de um “escritor fantasma”. No mesmo ano, Louis participa, com destaue do filme Pennies From Heaven. Nos dois anos seguintes foram exibidos outros filmes – Artists And Models, Everyday’ A Holiday, Doctor Rhythm e Goin’ Placess -, nos quais Satchmo foi usado para interpretar o personagem do negro ridículo, que era parte dos estereótipos de Hollywood. É possível que sua fama de “Tio Tom” tenha encontrado nessas filmagens uma primeira justificativa. (A expressão “Tio Tom” designa o negro que se comporta, em relação aos brancos, com excessiva subserviência e que aceita o papel que estes lhe atribuem).


Em 1942, começou um lockout das gravadoras de discos que duraria mais de dois anos; nesse período, depois da deflagração da guerra, foram gravados apenas os V Disc, destinados aos soldados americanos. Graças a eles podemos hoje ouvir o registyro0 do famoso concerto realizado em janeiro de 1944, no Metropolitan Opera House, do qual participaram os vencedores de referendo organizado pela revista Esquire, e que Armstrong vencera em 1943 como pistonista e cantor.


Terminada a paralisação das gravadoras, em 1945, Armstrong pôde voltar aos estúdios; em 1946 foi contratado pela RCA Victor. Ainda neste ano, obteve o papel mais importante do filme New Orleans (A Cidade do Jazz), uma versão no grandiloqüente estilo holliywoodiano de parte da história do jazz. No filme, Armstrong teve oportunidade d3 tocar magnificamente.


Em meados dos 40, já parecia claro que o período de ouro das grandes orquestras de dança estava no fim, e também Armstrong, a conselho de Joe Glaser decidiu se dedicar aos pequenos conjuntos. Foi assim que, depois de um concerto realizado no Town Hall de Nova York, em 27 de abril de 1947, os All Star de Armstrong estrearam oficialmente no billy Berg’s de Hollywood. O conjunto era formado inicialmente por Jack Teagarden (trombone), Barney Bigard (clarineta), Dick Cary (piano), Morty Cobb (contrabaixo e Sidney Carlett (bateria). Em seeguida, Arvell Shaw substitui Cobb, e Velma Middleton entrou no grupo como cantora,. Várias outras mudanças ocorreram até 1967, quando o pianista Billy Kyle morreu e foi substituído por Marty Napolean.


A formação dos All Stars fora saudada com entusiasmo por muitos anos, contentes com o fato de Armstrong ter retornado ao “caminho certo”, depois de havê-lo desconsiderado por anos em favor do mundo do espetáculo e do “swing degenerado”; alguns estavam convencidos de que Louis reeditaria execuções do nível das feitas com os Hot Five e Hot Sevem. Depois de algum tempo, porém, os aficionados foram dominados pelo sentimento de frustração e não perdoavam a Louis seu histrionismo.


A verdade é que esse pistonista se formara numa época em que os músicos negros eram considerados mais como entertainers, enquanto depois do fim da Guerra os negros americanos haviam se tornado fortemente consciente da sua posição de “cidadãos de segunda classe”, assumindo uma atitude de inconformismo e depois de revolta aberta em relação aos brancos que os oprimiam. Não surpreende, assim, que os músicos mais jovens, que agora tocavam bebop (uma música muito diferente daquela de Armstrong), mostrassem certa revolta em relação aos irmãos de cor que continuavam a se comportar da maneira antiga. Por algum tempo, tudo que pertencia ao passado, inclusive a música, foi totalmente rejeitado. Armstrong tornou-se o alvo favorito das flechadas dos críticos e dos músicos engajados, e é certo que, por alguns anos, sofreu muito com isso.
Seu comportamento, porém, não mudou – e seu olhares cômicos, certos gracejos não exatamente de bom gosto e principalmente sua cordialidade extensiva lhe valeram o apelido de “Tio Tom”. A situação tornou-se ainda mais exacerbada perante a hostilidade com que Louis tratava os boppers.


Todavia, em certo momento, Armstrong surpreendeu a todos concedendo uma entrevista na qual, indignado com os episódios de intolerância racial ocorridos em Arkansas (as autoridades locais procuravam impedir o ingresso dos negros nas escolas públicas ordenado pelo governo federal) acusou o presidente Eisenhower de ter “duas caras” e cancelou uma tournée pela União Soviética que havia sido organizada pelo Departamento de Estado.


Mais acertadas que aquelas que o pintavam como “Tio Tom” eram as críticas relacionadas com a previsibilidade dos concertos de Armstrong, nos quais sempre eram repetidas as mesmas músicas e os mesmos solos. Mas Armstrong era um homem do espetáculo, esperto demais para não saber que o público – do qual participavam número reduzidíssimo de verdadeiros amantes do jazz – queria ouvir mesmo as músicas mais familiares. Por outro lado, ele tinha plena consciência de que já não estava em condições de melhorar seu s velhos solos.


Depois de participar do Festival do Jazz de Nice, em 1948, o grupo de Armstrong realizou vária tournées fora dos Estados Unidos. Foi para Gana, onde Ed Murrow filmou um documentário Satchmo The Great; e viajou também para a América do \sul e para o Japão. E, 1959, foi para a Itália, a fim de participar do festival Dos Dois Mundos, em Spoleto, mas Armstrong adoeceu e precisou se hospitalizar. Recuperado, reiniciou a rotina infernal: em 1960, estava novamente na África, onde se exibiu em 45 concertos, em dez países, muitas vezes em estádios esportivos, perante dezena de milhares de espectadores. Participou também de outros filmes importantes: Paris Blues, rodado na capital francesa, e High Society.


Entre 1963 e 1965 tocou um pouco por toda parte: na Austrália e em vários países asiáticos e, por último, no leste europeu (com exclusão da União Soviética), onde foi recebido com grande entusiasmo. Em Budapeste reuniram-se mais de 93000 espectadores para ouvi-lo.

 Apresentou-se depois muitas vezes na Europa: em 1967, para estarrecimento de seus admiradores, participou do /Festival da Canção de San Remo.


Nesses últimos anos de sua carreira gravou também dois discos que ganharam os primeiros lugares nas paradas de sucessos: Hello Dolly, extraído do musical de mesmo nome, que o levou para as telas novamente, e It’s A Wonderful Word.


A atividade intensa a que se havia lançado acabou por debilitar seu organismo: depois de 1968 foi repentinamente hospitalizado e obrigado a reduzir suas exibições. Finalmente, a 6 de julho de 1971, morreu em sua própria casa, enquanto dormia.


Nos meses que se seguiram ao seu desaparecimento, muitos críticos reexaminaram sua produção discográfica; a última parte da qual foi, em geral considerada de forma negativa. Teria sido absurdo, porém, pretender que Armstrong com mais de 60 anos, pudesse tocar como nos tempos dos Hot Five. E, por outro lado, não pode surpreender que, numa produção tão ampla como a sua, coincidindo com a era do long-play, nem tudo seja de boa qualidade.


Mesmo assim, entre as gravações do último período, incluídas as do All Stars, não faltam registros realizados com êxito. Entre eles estão, por exemplo, os discos gravados durantes os concertos do All Stars no Symphony Hall de Boston (30 de novembro de m1947) e no Crescendo Club de Los Angels (21 de janeiro de 1955). Os dois álbuns dos All Stars de resultado mais satisfatório foram gravados em estúdio: New Orleans Nights (abril de 1950) e o famoso Louis Armstrong Pays W. C. Handy (lulho de 1954). Este, particularmente, é considerado uma das melhores coisas feitas por Armstrong nos últimos anos. Nele, também Barney Bigard é mais satisfatório que de costume, enquanto as opiniões são discordantes quanto ao trombone, por vezes grotesco de Trumy Young, cujo estilo, muito diferente do que fora no tempo de Lunceford, era apreciado por seu atual líder, que por ele se sentia estimulado. Seja como for, é a música do pistão de Armstrong que torna importante o LP: em cada faixa, seus solos, inflamados e criativos, são soberbos. Entre eles merecem ser lembrados os de Yellow Dog Blus, Aunt Hagar’s Blues, The Memphis Blues e, sobretudo, Beale Street Blues. A tentativa de repetir o êxito desse disco com um novo álbum, Louis Armstrong Plays Fats Waller, gravado em 1955, não deu resultadok, ainda que o solo do pistão executado por Armstriong em Blue Turning Gray Over You seja magnífico.
As gravações mais importantes do período derradeiro de Armstrong são provavelmente, as realizadas entre dezembro de 1956 e janeiro de 1957, reunidas num álbum de quatro discos publicado pela Decca sob o título de Satchmo: A Musical Autobiography e no qual são reeditados muitos dos seus sucessos antigos. Entre as mais de cinqüenta músicas da coletânea destacam-0se Lazy River, When You’re Smiling, Them There Eyes e ainda mais Heebie Jeebies, que talvez supere a versão de 1926.


Nos últimos anos de sua carreira, Louis Armstrong era um ídolo de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro, muitas das quais estavam apenas vagamente conscientes de que esse homem havia praticamente reformulado o jazz: era um gênio musical.






Escrito por Nilton Rodrigues às 20h51
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Continuação da Vida e Obra de Louis Armastrong

 

Entre as mais notáveis gravações realizadas por Armstrong com esse grupo, primeiro para a Okeh e depois para a Paramound e para a Colúmbia, podem ser lembradas Riverside Blues, Mabel’1s Dream, Southem Stomp, Tears e Dipper-mouth Blues (também conhecido como Sugar Foot Stomp), que assinado por ele e por Oliver e que foi gravado várias vezes. Deve ser citado ainda o registro em disco de Camp Meeting Blues, uma bela composição de Oliver que teria sido retomada por Duke Ellington em sua Creole Love Call.
Em 1924, ocorrem numerosas mudanças na Crole Jaz Band, que Louis Armstrong também abandonou quando já foi contratado para a orquestra que Ollie Powers dirigia no Dreamland, outro grande salão de dança de Chicago. No outono, todavia, Armstrong separou-se também dessa orquestra, pois recebera uma boa proposta de Fretcher Henderson, que o queria em seu grupo, contratado pelo Roseland, de Nova York.


Tão logo0 o som da corneta de Armstrong passou a ser parte do grupo de Henderson, os músicos de Nova York começaram a afluir em grande número ao Roseland para ouvi-lo e aprender. Entre seus admiradores mais entusiasmados estavam os cornetista brancos Loring Red Nichols e Bix Beiderbecke.



As gravaçoes de boa qualidade feitas por Armstrong no ano de sua permanência na orquestra der Henderson são numerosas. Em muitas, o cornetista realiza solos mais ou menos longos, além de bem gravados, porque é exatamente nessa época o uso corrente do sistema de gravação elétrica. Entre as melhores está Suger Foot Stomp, com arranjo de don Redman, no qual Louis retoma o solo que Oliver tornara famoso.


São desse período também algumas belíssimas gravações feitas para a Okeh por iniciativa do pianista Clarence Williams, nas quais está ao lado de Armstrong, entre outros, Sidney Bechet, o grande sax-soprano de Nova Orleans. Em 1925, foi gravada a interpretação de St Louis Blues em que Armstrong acompanha a grande Bessie Smtith, oferecendo, junto a ela, uma verdadeira obra prima. Bessie Smith não foi a única cantora de blues que utilizou Satchmo comjo acompanhante para gravação, quiseram-no nessa condição também Ma Rainey, Virgínia Liston,Sippie Wallace e Maggie Jones, além de Clara Smith, cujo estilo majestoso combinava perfeitamente com o dele.
Também Lil Armstrong cuidou de conseguir-lhe sessões de gravação, algumas das quais para a Gennet, com o grupo de estúdio Red Onion Jazz Babies (terrible Blues e Cake Walking Babies From Home estão entre as melhores gravações feitas com esse conjunto).
Em novembro, depois de ter gravado outros discos para a Vocalion, Armstrong voltou a Chicago. Agora não era mais apenas um instrumentista, pois durante a sua permanência no Roseland havia começado a se exibir também como cantor e bailarino. Com freqüência pegava um megafone (os microfones ainda não eram usados) para cantar com sua característica de voz cavernosa os versos de uma canção, adicionando-lhes algumas variações como se estivesse improvisando ao pistão. Por vezes, as palavras eram comicamente distorcidas, e é possível que algumas deformações decorressem de seu pouco respeito por versos que consideravam estúpidos demais.


Em Chicago entrou para a orquestra que Lil havia formado para cumprir um contrato no Dreamland; fora-lhe oferecido um pagamento altíssimo para a época: 75 dólares por semana. Mas não trabalhou apenas naquele grupo: depois de alguns meses foi contratado também por Erskine Tate para tocar na orquestra que este dirigia no Vendome Theatre e que exibia, no palco, entre as sessões de cinema.


Na Primavera de 1925, o pistonista deixou o Dreamland. Apesar de continuar com Erskine Tate, tornou-se membro regular da orquestra dirigida por Carroll Dickerson no Sunset Café. Foi lá que o pianista Earl Hines, com quem gravava discos memoráveis. Nos primeiros meses de 1927, Dickerson deixou a direção da orquestra (não se sabe se v luntariamente ou não). Que foi assumida por Armstrong, por sugestão do proprietário e ditretor da Sunsert, Joe Glaser, que se tornaria famoso empresário de orquestras e agente pessoal do pistonista (a corneta de Satchmo fora abandonada em favor do pistão). No mesmo ano, Louis deixa a orquestra do Vendome para se exibir como atração em alguns espetáculos do Metropolitan Teatre. Por curto período alugou também o Wirwick Hall, onde dirigiu um grupo por ele formado. O empreendimento, porém não teve sucesso; assim, em março de 1928, Satchmo, decidiu voltar à orquestra de Dicerson para tocar com ela no Savoy Ballroom de Chicago.
Quando o contrato do Savoy terminou, os músicos da orquestra de Dickerson decidiram permanecer juntos, nomeando Armstrong como líder, e com ele viajaram para Nova York. Desde então, essa cidade passou a ser o domicílio oficial de Armstrong.


Os Hot Five e os Hot Seven eram grupos reunidos apenas nos estúdios de gravação, entre 1925 e 1928. Em público apresentaram-se uma única vez, em junho de 1026, para um concerto.
As primeiras gravações dos Hot Five são de 12 de novembro de 1925. Além de Louis faziam parte do grupo Kid Ory e três membros da orquestra de Oliver. Johnny St. Cyr (banjo) e Liol Hardin (piano). Ao longo de dois anos, Armstrong gravou regularmente com esse grupo0, ao qual, uma duas vezes, acrescentou o guitarrista Lonnie Johnson, depois transformou o conjunto em Hot Seven, acrescentando o tocador de tuba Pete Briggs e o baterista Warren Baby Dodds.


As gravações dos Hot Five e dos Hot Seven, igualmente de muito valor, constituem algumas das mais importantes execuções jazzísticas: várias são obras primas indiscutíveis, mesmo não estando os outros membros do grupo a altura do líder, quanto a conhecimento rítmico e harmônico.


Cornet Chop Suey, gravado em fevereiro de 1926, foi a primeira exibição virtuosística de Armstrong, enquanto You’re Next e Jazz Lips permite prever o que viria depois. Em 1927, Armstrong realizou uma série de gravações excepcionalmente brilhantes, a propósito das quais o crítico e musicólogo Max Harrison escreveu, em Jazz On Record: “Aquui, a imaginação de Armstrong é sempre vivíssima, e em peças como Wild Man Blues é quase fantástica;. E sua execução é suficientemente vigorosa para sustentar suas extravagantes – mas sempre expressivas – idéias. Keyhole Blues dá a medida dos riscos que ele estava disposto a assumir quando realizava os solos e a criatividade com a qual resolvia os problemas decorrentes: Potato Heads Blues é uma obra prima no tocante ao controle rítmico; 12th Street Rag foi recomposta maravilhosamente num elaborado blues lento. Quanto a Willie The Weeper, Alligator Crawl, Melancholy Blues, Weary Blues e Savoy Blues, cada uma delas tem méritos especiais”.
Em 1928, Armstrong copmeçou a gravar com um novo grupo, chamado às vezes de Hot Five e outras vezes de Savoy Ballroom Five, e constituído por elementos da orquestra de Dickerson. O trombonista Fred Robinson e o clarinetista Jimmy Strong eraqm músicos capacitados, mas fracos no improviso, enquanto o baterista Zutty Singleton e o pianista Earl Hines improvisavam bem melhor. Hines, particularmente, foi o primeiro artista com quem Armstrong gravou a estar no nível que ele em virtuosismo técnico e audácia inventiva nos solos. Os primeiros discos de Hot Five dos Hot Seven haviam permanecido bastante fiéis pelo menos aos esquemas dos conjuntos clássicos de Nova Orleans, mas o Savoy Ballrom Five deles se afasta declaradamente. Suas execuções tomam a forma do virtuosismo dos solistas e se caracteriza por complexas passagens do conjunto, mudanças súbitas do tempo, alterações harmônicas inesperadas e virtuosismo rítmico. A comovedora West End Blues é talvez a mais conhecida das músicas gravadas por Armstrong nesse período, mas o dueto pistão-piano, em Weather Bird e, depois, em Skip The Gunter, Muggles. Squeeze e Tight Like This, é igualmente admirável: os refrões finais do pistonista, sobretudo nessa última música, possuem uma solidez estrutural quase arquitetônica.
Em Nova York, Armstrong e seus companheiros, de início, enfrentaram sérias dificuldades. Porém, depois de conseguir um contrato no Audubon, puderam trabalhar no famoso Savoy Ballroom do Harlem, passando em seguida, com ótimo contrato, ao Connie’s Inn, casa noturna da moda. Armstrong foi também contratado individualmente para figurar na Broadway, na revista Hot Chocolates, na qual tocava e cantava Ain’t Misbehavin’, a canção de Fats Waller, que uma vez gravada por Satchomo, tornou-se muito popular.
O contrato no Connie’s Inn acabou no verão de 1930 e a partir de então Armstrong passou a realizar tournées por toda parte, como prosseguiria fazendo, em ritmo intenso, quase até o fim dos seus dias. Em junho de 1930 chegou à Califórnia, onde se apresentou longamente com a orquestra local, no Sebastian’s New Cotton Club, de Los Angeles. Na época, Armstrong estava contratado como artista individual; mesmo nos anos seguintes, embora tenha sido exibido com numerosas orquestras que tinham seu nome, Louis sempre deu a impressão de querer deixar a outrem a escolha de seus músicos.
Nessa fase de sua carreira, Armstrong gravou peças baseadas em música de moda. Seu domínio da harmonia facilitava-lhe a assimilação desse tipo de tema, e isso lhe permitiu produzir algumas execuções que se tornaram clássicas, como, por exemplo, My Sweet, Body And Soul, Memories Of You, Just A Gigolô, Blue Agaion e them There Eyes. Não há dúvida de que Armstrong tenha sido o maior dos cantores de jazz, ainda que sua voz seja bastante discutível, se analisada de acordo com critérios acadêmicos. A maneira de cantar de Armstrong é uma extensão de sua maneira de tocar: o fraseado, do ponto de vista rítmico, é o mesmo, e semelhantes são o balanço9 e o sentido do tempo.


Nos primeiros meses de 1931, o pistonista voltou a Chicago, onde formou uma orquestra cuja direção musical foi confiada a Zilner Randolph. Com ela Satchmo realizou concertos emn diversas cidades, e, também, depois de nove anos de ausência em Nova Orleans, onde recebeu uma acolhida triunfal.


Em 1932, também para fugir dos efeitos, cada vez mais perceptivos, da grande crise econômica, que desde 1929 afligia os Estados Unidos, atravessou pela primeira vez o Atlântico para se exibir em Londres, cidade a que chegou em 15 de julho. Depois de ensaiar com uma orquestra organizada às pressas, constituída por músicos negros exportados de Paris, conseguiu finalmente, a 18 de julho, dar um concerto no London Palladium, provocando o entusiasmo do público (mas também a indignação de alguns maestros de orquestras de música popular). Ao retornar, em fins de 1932, começou a gravar para a RCA Victor. No conjunto, não são essas as suas melhores interpretações, ainda que no lote não faltem discos apreciáveis e uma obra-prima: I Gotta Right To Sing The Blues.


Na opinião de alguns, nessa época Armstrong já mostrava acentuada propensão aos aspectos espetaculares de suas exibições, que passariam a ser muito relevantes em seus concertos. Para compreender as origens e o significado desse amor ao espetáculo é

Escrito por Nilton Rodrigues às 20h50
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