preciso lembrar os primórdios de sua carreira
Por volta de 1933 descobriu que sabia tocar com facilidade extrema no registro agudo do instrumento e que algumas longas séries de notas agudas agradavam ao público. Resolveu introduzi-las também nos discos. É preciso, porém, reconhecer que, se reco0rria a certos virtuosismos para agradar às galerias, sabia também utilizar as notas agudas de modo muito lógico.
Sabia igualmente – como relata Roy Eldridge – construir gradativamente um edifício sonoro, contar, por assim dizer, uma história, e terminar com um final de grande efeito, mas sempre muito centinho, limpo e claro.
Em 1933, Armstrong deu início a um segundo giro pela Europa. Permaneceu dezoito meses tocando na Inglaterra, Suécia, Noruega, Dinamarca, Holanda, França, Bélgica, Suíça e Itália. Em Paris gravou diversas músicas, uma das quais, On The Sunny side Of The Street, é bem representativa de seu modo de tocar naquela época.
De volta, em janeiro de 1935, tocou no Meio-Oeste e no sudoeste; depois assinou contrato com a Decca e passou a dirigir a orquestra de Luis Russel, com a qual tocaria até 1942.
Os primeiros discos gravados para a Decca deram origem a discussões: alguns críticos de peso escreveram que o estilo de Armstrong havia mudado – para pior. A verdade éw que o artista já não exibia seus finais com base nas notas agudas; sua sonoridade tornara-se mais nítida e macia, enquanto seu fraseado (assim como, de forma mais genérica, sua presença no palco) caracterizava-se por maior sobriedade. Entre os discos dessa fase Destacam-se as novas versões de Struttin’ With Some Barbecue e de Save It Pretty Mama, além de Sweethearts On Parade e de algumas gravações feitas em sessões especiais com Sidney Bechet.
Em 1936, foi publicado um livro autobibliográfico, Swing That Music, no qual se percebe a mão de um “escritor fantasma”. No mesmo ano, Louis participa, com destaue do filme Pennies From Heaven. Nos dois anos seguintes foram exibidos outros filmes – Artists And Models, Everyday’ A Holiday, Doctor Rhythm e Goin’ Placess -, nos quais Satchmo foi usado para interpretar o personagem do negro ridículo, que era parte dos estereótipos de Hollywood. É possível que sua fama de “Tio Tom” tenha encontrado nessas filmagens uma primeira justificativa. (A expressão “Tio Tom” designa o negro que se comporta, em relação aos brancos, com excessiva subserviência e que aceita o papel que estes lhe atribuem).
Em 1942, começou um lockout das gravadoras de discos que duraria mais de dois anos; nesse período, depois da deflagração da guerra, foram gravados apenas os V Disc, destinados aos soldados americanos. Graças a eles podemos hoje ouvir o registyro0 do famoso concerto realizado em janeiro de 1944, no Metropolitan Opera House, do qual participaram os vencedores de referendo organizado pela revista Esquire, e que Armstrong vencera em 1943 como pistonista e cantor.
Terminada a paralisação das gravadoras, em 1945, Armstrong pôde voltar aos estúdios; em 1946 foi contratado pela RCA Victor. Ainda neste ano, obteve o papel mais importante do filme New Orleans (A Cidade do Jazz), uma versão no grandiloqüente estilo holliywoodiano de parte da história do jazz. No filme, Armstrong teve oportunidade d3 tocar magnificamente.
Em meados dos 40, já parecia claro que o período de ouro das grandes orquestras de dança estava no fim, e também Armstrong, a conselho de Joe Glaser decidiu se dedicar aos pequenos conjuntos. Foi assim que, depois de um concerto realizado no Town Hall de Nova York, em 27 de abril de 1947, os All Star de Armstrong estrearam oficialmente no billy Berg’s de Hollywood. O conjunto era formado inicialmente por Jack Teagarden (trombone), Barney Bigard (clarineta), Dick Cary (piano), Morty Cobb (contrabaixo e Sidney Carlett (bateria). Em seeguida, Arvell Shaw substitui Cobb, e Velma Middleton entrou no grupo como cantora,. Várias outras mudanças ocorreram até 1967, quando o pianista Billy Kyle morreu e foi substituído por Marty Napolean.
A formação dos All Stars fora saudada com entusiasmo por muitos anos, contentes com o fato de Armstrong ter retornado ao “caminho certo”, depois de havê-lo desconsiderado por anos em favor do mundo do espetáculo e do “swing degenerado”; alguns estavam convencidos de que Louis reeditaria execuções do nível das feitas com os Hot Five e Hot Sevem. Depois de algum tempo, porém, os aficionados foram dominados pelo sentimento de frustração e não perdoavam a Louis seu histrionismo.
A verdade é que esse pistonista se formara numa época em que os músicos negros eram considerados mais como entertainers, enquanto depois do fim da Guerra os negros americanos haviam se tornado fortemente consciente da sua posição de “cidadãos de segunda classe”, assumindo uma atitude de inconformismo e depois de revolta aberta em relação aos brancos que os oprimiam. Não surpreende, assim, que os músicos mais jovens, que agora tocavam bebop (uma música muito diferente daquela de Armstrong), mostrassem certa revolta em relação aos irmãos de cor que continuavam a se comportar da maneira antiga. Por algum tempo, tudo que pertencia ao passado, inclusive a música, foi totalmente rejeitado. Armstrong tornou-se o alvo favorito das flechadas dos críticos e dos músicos engajados, e é certo que, por alguns anos, sofreu muito com isso.
Seu comportamento, porém, não mudou – e seu olhares cômicos, certos gracejos não exatamente de bom gosto e principalmente sua cordialidade extensiva lhe valeram o apelido de “Tio Tom”. A situação tornou-se ainda mais exacerbada perante a hostilidade com que Louis tratava os boppers.
Todavia, em certo momento, Armstrong surpreendeu a todos concedendo uma entrevista na qual, indignado com os episódios de intolerância racial ocorridos em Arkansas (as autoridades locais procuravam impedir o ingresso dos negros nas escolas públicas ordenado pelo governo federal) acusou o presidente Eisenhower de ter “duas caras” e cancelou uma tournée pela União Soviética que havia sido organizada pelo Departamento de Estado.
Mais acertadas que aquelas que o pintavam como “Tio Tom” eram as críticas relacionadas com a previsibilidade dos concertos de Armstrong, nos quais sempre eram repetidas as mesmas músicas e os mesmos solos. Mas Armstrong era um homem do espetáculo, esperto demais para não saber que o público – do qual participavam número reduzidíssimo de verdadeiros amantes do jazz – queria ouvir mesmo as músicas mais familiares. Por outro lado, ele tinha plena consciência de que já não estava em condições de melhorar seu s velhos solos.
Depois de participar do Festival do Jazz de Nice, em 1948, o grupo de Armstrong realizou vária tournées fora dos Estados Unidos. Foi para Gana, onde Ed Murrow filmou um documentário Satchmo The Great; e viajou também para a América do \sul e para o Japão. E, 1959, foi para a Itália, a fim de participar do festival Dos Dois Mundos, em Spoleto, mas Armstrong adoeceu e precisou se hospitalizar. Recuperado, reiniciou a rotina infernal: em 1960, estava novamente na África, onde se exibiu em 45 concertos, em dez países, muitas vezes em estádios esportivos, perante dezena de milhares de espectadores. Participou também de outros filmes importantes: Paris Blues, rodado na capital francesa, e High Society.
Entre 1963 e 1965 tocou um pouco por toda parte: na Austrália e em vários países asiáticos e, por último, no leste europeu (com exclusão da União Soviética), onde foi recebido com grande entusiasmo. Em Budapeste reuniram-se mais de 93000 espectadores para ouvi-lo.
Apresentou-se depois muitas vezes na Europa: em 1967, para estarrecimento de seus admiradores, participou do /Festival da Canção de San Remo.
Nesses últimos anos de sua carreira gravou também dois discos que ganharam os primeiros lugares nas paradas de sucessos: Hello Dolly, extraído do musical de mesmo nome, que o levou para as telas novamente, e It’s A Wonderful Word.
A atividade intensa a que se havia lançado acabou por debilitar seu organismo: depois de 1968 foi repentinamente hospitalizado e obrigado a reduzir suas exibições. Finalmente, a 6 de julho de 1971, morreu em sua própria casa, enquanto dormia.
Nos meses que se seguiram ao seu desaparecimento, muitos críticos reexaminaram sua produção discográfica; a última parte da qual foi, em geral considerada de forma negativa. Teria sido absurdo, porém, pretender que Armstrong com mais de 60 anos, pudesse tocar como nos tempos dos Hot Five. E, por outro lado, não pode surpreender que, numa produção tão ampla como a sua, coincidindo com a era do long-play, nem tudo seja de boa qualidade.
Mesmo assim, entre as gravações do último período, incluídas as do All Stars, não faltam registros realizados com êxito. Entre eles estão, por exemplo, os discos gravados durantes os concertos do All Stars no Symphony Hall de Boston (30 de novembro de m1947) e no Crescendo Club de Los Angels (21 de janeiro de 1955). Os dois álbuns dos All Stars de resultado mais satisfatório foram gravados em estúdio: New Orleans Nights (abril de 1950) e o famoso Louis Armstrong Pays W. C. Handy (lulho de 1954). Este, particularmente, é considerado uma das melhores coisas feitas por Armstrong nos últimos anos. Nele, também Barney Bigard é mais satisfatório que de costume, enquanto as opiniões são discordantes quanto ao trombone, por vezes grotesco de Trumy Young, cujo estilo, muito diferente do que fora no tempo de Lunceford, era apreciado por seu atual líder, que por ele se sentia estimulado. Seja como for, é a música do pistão de Armstrong que torna importante o LP: em cada faixa, seus solos, inflamados e criativos, são soberbos. Entre eles merecem ser lembrados os de Yellow Dog Blus, Aunt Hagar’s Blues, The Memphis Blues e, sobretudo, Beale Street Blues. A tentativa de repetir o êxito desse disco com um novo álbum, Louis Armstrong Plays Fats Waller, gravado em 1955, não deu resultadok, ainda que o solo do pistão executado por Armstriong
As gravações mais importantes do período derradeiro de Armstrong são provavelmente, as realizadas entre dezembro de 1956 e janeiro de 1957, reunidas num álbum de quatro discos publicado pela Decca sob o título de Satchmo: A Musical Autobiography e no qual são reeditados muitos dos seus sucessos antigos. Entre as mais de cinqüenta músicas da coletânea destacam-0se Lazy River, When You’re Smiling, Them There Eyes e ainda mais Heebie Jeebies, que talvez supere a versão de 1926.
Nos últimos anos de sua carreira, Louis Armstrong era um ídolo de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro, muitas das quais estavam apenas vagamente conscientes de que esse homem havia praticamente reformulado o jazz: era um gênio musical.


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